Relatório que desmitifica visão negativa da migração é lançado no Brasil

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Migrantes representam uma ameaça à população local: prejudicam a economia, disseminam doenças, são fardo para os sistemas de saúde e têm taxas de fertilidade maiores. Estes são alguns dos mitos não suportados pelas evidências científicas reunidas no relatório final da Comissão UCL-Lancet em Migração e Saúde, lançado no Brasil nesta segunda-feira, 17 de dezembro, na Universidade Federal da Bahia.

Clique aqui e leia o relatório completo.

O evento foi conduzido pelo único brasileiro membro da Comissão, o coordenador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) Mauricio Barreto. Além dele, o lançamento do relatório contou com falas do presidente da Academia de Ciências da Bahia (ACB), Jailson Andrade, da assessora de comunicação e divulgação científica da Ufba, Mariluce Moura, e das pesquisadoras do Cidacs Júlia Pescarini e Dandara Ramos, que fizeram contribuições pontuais para o estudo.

O presidente da Academia de Ciências da Bahia destacou a relevância do documento ao desmitificar os malefícios da migração. “Os países foram feitos por correntes migratórias e o nosso foi feito por algumas espontâneas e outras obrigatórias. Mas isso foi o que fez o Brasil do jeito que é, com uma riqueza muito grande”, ressaltou.

Já Mariluce Moura afirmou que o Brasil deverá ser, cada vez mais, um polo de atração forte de imigrantes. “A realidade vai impor que o país lide bem com essa questão. É bom que a gente tenha um documento com bases científicas sólidas mostrando que isso pode ser positivo para o Brasil”, destacou.

O relatório é o resultado de um projeto de dois anos da Comissão UCL-Lancet em Migração e Saúde, conduzida por 20 especialistas de 13 países. O documento inclui a análise de dados novos, artigos originais de pesquisa e representa a mais abrangente revisão da evidência disponível sobre o tema. O evento foi promovido pelo Cidacs em parceria com University College London (UCL) e o periódico científico The Lancet, com o apoio da Academia de Ciências da Bahia e da Ufba.

Com evidências

O esforço de reunião de evidências científicas sobre migração e saúde realizado pela Comissão lança luz em uma relação que usualmente não é analisada, de acordo com o pesquisador Mauricio Barreto. Foi esse olhar mais acurado que possibilitou que o relatório pudesse desmitificar mitos como o de que migrantes são fardo para os sistemas de saúde.

“Evidentemente, quando a população cresce há uma carga maior e o sistema de saúde deve ser estruturado para atender a demanda. Mas, em uma sociedade saudável e equilibrada, as riquezas que os migrantes geram também financiam o sistema de saúde”, explicou Barreto. Segundo ele, os migrantes geralmente possuem condições de saúde e expectativa de vida maiores que a população local. “Os processos que geram a saída migratória de alguma forma selecionam pessoas mais saudáveis”, disse.

Outro mito considerado infundado pela Comissão é a de que os migrantes são vetores de transmissão de doenças. A pesquisadora do Cidacs, Julia Pescarini, analisou a tuberculose nos imigrantes bolivianos em São Paulo, grupo de risco para doença, especialmente devido a jornada da migração e as condições adversas que encontram quando chegam ao destino. Mas, apesar de terem uma carga alta de tuberculose, o fator de transmissão é similar a outros grupos de risco, como moradores de rua e usuários de drogas. “Eles são somente mais uma população vulnerável que necessita de atenção e cuidados especiais”, afirmou ela, ressaltando que deve-se ter cuidado para que as políticas de controle da doença não acabem reforçando a discriminação dessas populações.

As consequências da discriminação para os migrantes foi objeto da revisão da pesquisadora Dandara Ramos, que analisou evidências científicas sobre o impacto da detenção na saúde dos imigrantes. As evidências indicaram que entre 70% e 100% dos imigrantes que passaram por centros de detenção, inclusive crianças, apresentaram prevalência de transtornos do estresse pós-traumático (TEPT), de ansiedade ou depressão, com sinais como automutilação e ideação suicida.

Contudo, a pesquisadora lembrou que há limitações na pesquisa científica sobre o tema: a maioria dos imigrantes em centros de detenção de países de língua inglesa, especialmente as crianças, são de origem árabe e não falam inglês, o idioma prevalente na pesquisa científica. Além disso, dos 860 estudos identificados sobre o tema, somente quatro eram sobre os Estados Unidos – país que recentemente esteve em evidência devido a violação de direitos humanos dos imigrantes em centros de detenção. “Além de ser populações que tem seus direitos violados, ainda são invisíveis para a ciência tradicional. Encontrar essas evidências foi um grande choque, mas também deu uma sacudida na nossa cadeira de cientista de que estas populações precisam de atenção urgente, inclusive de atenção científica”, disse.

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